Paredes de Coura e uma geração pouco exigente

Do apequenado Festival de Música Moderna de Paredes de Coura ao apogeu da industria musical portuguesa

Quando falamos de Paredes de Coura, nada vem à cabeça do cidadão comum além de um dos maiores, mais antigos e populares festivais da nossa nação. Criado há mais de trinta anos na praia fluvial do Taboão, o já maduro festival hospedou dos maiores nomes da música global ao longo das três décadas de sua existência. Auto intitulado o “habitat natural da música” assume-se então que a música será o foco principal deste festival, apesar de se destacar também pelo seu ambiente empático, o belo e enorme parque de campismo, o cegante pó que advém do mesmo e o congelante rio Coura que durante a semana do festival é inundado por uma quantidade exorbitante de todo o tipo de gente, que se acomoda num senso de comunidade que dá destaque a este evento. Mas vamos falar de música….

Não sendo eu o mais assíduo “festivaleiro” costumo marcar a minha presença neste festival há 4 anos, tendo sido 2022 a primeira edição uma edição de cartaz recheado com um primeiro dia dedicado à música portuguesa com 20 atuações, e um resto de festival recheado de concertos de todo o tipo, mantendo o “selo de qualidade paredes de Coura” que nos deixava constantemente surpresos a cada atuação e que admirava muito pouca gente, assídua e habituada a um festival que mantinha como seu principal objectivo dar a conhecer o topo da indústria musical e apresentava-se como a rampa perfeita à ascensão de qualquer que pisasse tal palco. Essa edição de 2022 continua até hoje a que me relembro de ter um cartaz de saltar aos olhos, que provavelmente muitos amantes de música olhariam com olhos desejosos.

Desde essa edição a escassez de cartazes de encantar foi uma constante até ao ano de 2025, a clara falta de identidade e uma tentativa persistente de se manter eclético traz-nos uma mistela desengonçada de concertos que preenchem apenas parcialmente o espaço que lhes foi atribuído.

Vodafone Paredes de Coura 2025

Sobe à vila e o desaparecimento das bandas

O tão amado Sobe à Vila é a “festa da terrinha” entre bastantes aspas, que antecede a atração principal, destaca-se por juntar a estética alternativa do evento com a tradicional festa lusitana. Temperado com um gosto de música ascendente normalmente lusa, em tempos escreveu o início da história de bandas que no futuro pisariam o palco do aclamado festival. Este ano porém destaca-se por uma discrepância entre o número de bandas escaladas tendo em conta o de DJs. 

Esta edição do sobe à vila arrancou com um dia apenas dedicado ao “clubbing” na “Caixa de música”, nem uma banda marcou presença no primeiro dia do festival. Não tendo estado presente neste iniciar de calendário, não poderei falar acerca dos sets da noite. 

No segundo dia do “Sobe à Vila” finalmente dois concertos preenchem o cartaz, Gato Sapato e bbbhairdryer, acompanhados de dois DJs que a partir das 23 horas até ao fim da noite marcaram presença. Repetindo-se exatamente o mesmo cenário no dia seguinte, sendo que se inicia a noite com IBSXJAUR um DJ set disfarçado de concerto que nos traz o degradante techno a horas pouco decentes, seguidos de Travo, a repetição psicadélica do ruído, energético porém ligeiramente vazio e melodicamente muito pouco apurado, porém um concerto de dar fome para mais, sem saber o que me esperava, mantive-me perto do palco, quando começam a ser montadas as mesas para o clubbing, a decepção vem à deriva, sendo este o primeiro dia em que marquei presença no festival não estava por dentro do modus operandi deste novo circo de música eletrónica.

Ao palco sobem três mulheres, de nome Lei da Paridade que passam exclusivamente música de mulheres segundo palavras das próprias, uma autentica mixórdia de pimbalhice, a substituir milhares de bandas que podiam estar a actuar num palco tão simbólico, três comentadoras políticas abrem a porta a uma pista de dança embaraçosa, disfarçado de feminismo, porém muito longe de tal, diminuem as mulheres dizendo que temos de passar música apenas de mulheres para as glorificar, colocando-as num degrau abaixo e manchando até a história desse movimento através de uma panóplia do tipo de música mais genérica possível deixando constrangido qualquer que tivesse vindo de tão longe para algo como aquilo.

Não sendo este o evento principal deste festival, algumas mudanças que se têm vindo a notar nos últimos anos e pelo menos nas últimas duas edições, são três concertos para sete Dj sets, sendo esta uma prática que se observa cada vez mais entre os festivais de música, revela uma enorme preguiça por parte da organização, tratando-se de uma opção mais barata, fácil e que envolve muito pouco talento por parte do artista, clubbing não é um problema na devida proporção e nas horas que até chamam por ele, mas não podemos deixar que inundem uma parte tão importante de um evento deste calibre e importância, abrindo um precedente caótico e que beneficia muito pouco a música independente portuguesa.

Daremos início à cerimónia

Na ausência de cor, Unsafe Space Garden trazem a euforia e cromatismo necessário para pintar algumas pontas soltas neste quadro acizentado, com influências facilmente observáveis, levam-nos numa jornada a tempos áureos do rock n’ roll, com uma atuação emotiva e um sentimento visível de concretização após estreia num dos palcos mais aclamados do nosso país, sucedem a Samuel Úria, convidado habitual mas que traz pouco de novo e mostra novamente uma preguiça inerente à realização de um evento desta magnitude através da repetição, o que já é comum e já cansa…

Sobrevêm a esse espetáculo uma série de artistas de emoção equiparada à mais rotineira atividade laboral, Nilufer Yania e Cass McCombs mostram uma face pouco importada em concertos que dão a impressão de durar horas e horas…

MJ Lenderman & The Wind, mostra uma identidade, um calmo monólogo com influências claras de Neil Young a despertarem a minha atenção em instrumentais que nos levam anos e anos no retrocesso do tempo, mantendo a sua atualidade, mas nada que sacie estes ouvidos sedentos por mais e mais… Vampire Weekend fecham o dia, com um grande aparato segundo o que se ouve por aí, a fraqueza no meu corpo não me deixou assistir a esta peça que surpreendeu a muitos, mesmo pouco simpatizantes com o estilo musical do grupo.

No final dos concertos propriamente ditos, temos o “clubbing” que a mim pouco me interessa mas que preenche o seu espaço no momento e intensidade a que é normalmente submetido.

Retornado à minha base, a depravação dos meus sentidos tem o papel fundamental de me permitir adormecer no meio da poluição sonora que é disparada aleatoriamente como balas num tiroteio de loucos, mas aterro rapidamente, no desespero de abafar esta espécie de batida que me causa feridas auditivas, de cariz por vezes permanente…

Perfume Genius com uma primeira metade de concerto fraca, que colocara nas faces dos meus acompanhantes um até constrangimento, e no simples alterar de posição de um dos músicos, contemplam-nos com uma segunda metade arrepiante num exemplo luxuoso da progressão, evolução e ascensão que colocam este como o melhor espetáculo da noite. Não sozinho pois Soft Play trazem-nos o mais puro punk britânico numa sessão crua de uma pancadaria sonora, fazendo abanar a fachada de um festival que já me deixava por aquela altura os olhos ligeiramente caídos, com apenas dois elementos e uma potência de ser ouvida a milhas, foi a banda sonora perfeita para acompanhar o nosso brinde tribal.

O que lhes segue, pelo menos que os meus olhos já ligeiramente turvos e focados mais em manter cada cigarro aceso e cada copo cheio se permitem persentir, nada senão um resto de noite musicalmente banal, Lola Young e Portugal The Man encerram um palco principal que me provoca algo que seria apenas comparável ao mais oposto possível da palavra nostalgia.

A última performance da noite Travo, aqui novamente nos encontramos, porém nesta oportunidade posso beneficiar até de um concerto deste tipo, o meu corpo já abalado dirige-se à fila da frente de um concerto que antes de começar já estava a passar-se inteiramente na minha cabeça, e ao iniciar-se uma quantidade até reduzida de tempo é suficiente para me aborrecer ao ponto de me dar um sono suficiente.

No habitual ritual pré-cerimonial deixamos que a dormência nos domine e numa ausência de limpeza constante sinto como se a cada passo os meus adornos me arranham como milhares de lixas pontiagudas causando uma aversão a qualquer vestimenta desejando que algo me dispa peça a peça para que possa deambular livre por este simpático parque de diversões. Não tendo concretizado este desejo, por factores que estão fora do meu poder dirijo-me ao recinto para um dia que aguardo já com algum entusiasmo.

Memória de Peixe abrem o palco secundário, não estando presente, oiço ser uma demonstração frenética de musicalidade e capacidade, unindo especialistas num bocado musical que leva ao limite o talento de cada intermediário, certamente terei todo o gosto de eventualmente apreciar este espetáculo, perdi também Dino D´Santiago talvez para o melhor de ambos.

Quando finalmente alcançamos o terreno pretendido, Georgie Greep atuam no palco principal não tendo sido algo que me tenha provocado algum tipo de desagrado, não me surpreendeu assim tanto, num estilo de autêntica “jam session” pelo pouco tempo que perdi a apreciar, utilizo este concerto como música de fundo para uma conversa acerca de bombas relógio com o meu colega de face magra, que até agora tem vindo a ser o único que vive em concordância com o meu descontentamento para com este evento.

Numa altura em que já pouco me convencem a maioria dos concertos, e após Bar Italia, um concerto com uma vocalista muito fraca, com um nervosismo mascarado de gestos obscenos, onduladas danças e uma voz perdida algures na afinação de cada tema que tem como adorno a sua voz.

Black Country New Road mostram a sua nova identidade, num concerto que se destaca por um conjunto vocal de arrepiar e com três vozes que se entrelaçam para nos fazer levitar em cada fechar de olhos, composições complexas e engraças numa dinâmica no geral agradável, vemos que estão bem encaminhados e que mesmo com a ausência do antigo vocalista, não perderam identidade apenas nos contemplam com uma nova face já madura pronta para se manter nos próximos anos, mesmo sendo de pesar o facto de não podermos ouvir a banda com a magia de Issac Wood, podemos ficar satisfeitos pois a queda não foi tão aguda quanto isso.

King Krule vem acompanhado de ventos pouco brandos, mostra-nos uma face extremamente madura tendo em conta a sua última presença por estas andanças e traz-nos um espetáculo exemplar que combina energia, originalidade, um som bastante moderno mas principalmente um concerto cheio de coração, um artista que coloca todo o seu coração ao ofício que o colocou no planeta com uma necessidade de materializar os mais profundos sentimentos num espelhar deslumbrante de si próprio. Um alívio que me deixa sedento por mais artistas no mais sensível sentido da palavra, algo difícil de esquecer abafando quase tudo o que já tinha presenciado.

Menção honrosa para La Jungle que dizem ter sido um concerto exemplar, pena que o último concerto me dominou e obrigou a apreciá-lo além da continuidade do mesmo, e em múltiplos debates de concordância vejo uma generalizada apreciação merecidíssima.

…num aparecer de um respirar já danificado sou contemplado com Ana Frango Elétrico, um nome chamativo, não desiludindo traz uma face da música brasileira que tem estado desaparecida, como uma brisa tão desejada, aterra levemente no meu corpo e me relaxa o todo que parece ligeiramente separado. 

Neste último dia eu e os meus companheiros decidimos montar a barraca no palco principal, não por me entusiasmarem especialmente os espetáculos, mas por um provável cansaço acumulado de uma semana de altos e baixos. Não vejo problema pois no meu campo de visão tenho tudo o que preciso para sobreviver, o meu estômago já habituado a uma alimentação rasca e à base do mais barato que este festival tem para oferecer já se contenta com cigarros, e de ambos os lados sou contemplado com barracas onde posso adquirir cerveja.

Nisto DIIV começa, energético capta a minha atenção à primeira, mas à segunda e terceira já estou mais atento ao que se passa no ecrã por trás dos artistas, que a mim me interessou um pouco mais, às vezes quando a música não chega temos que apelar a outros modos de captar atenção e às vezes atropelam aquela que é atração principal, numa semelhança extrema de cada tema, sou aborrecido mas aprecio um balançar nas ondas do meu amigo primata no famoso “crowd surfing”.

Sharon Van Etten traz muito pouco de novo num concerto onde o destaque é a beleza da vocalista o resto passou-me um pouco ao lado.

Air num frenético jogo de luzes trazem um balanço perfeito entre a música e as mesmas, que neste caso unem-se para trazer um exemplar espetáculo e num silêncio de apreciação deixamo-nos ser dominados pela experiência deste trio maravilhoso. Já Franz Ferdinand trazem-nos um exemplo do “rock a metro” numa fórmula repetida em praticamente todos os temas, numa intencional pista de dança da ignorância, um espetáculo vazio de coração e criatividade, observamos o banal a ser elevado a algo grandioso por um público de muito pouco critério, custou-me estranhamente assistir a este espetáculo de tão perto e após uma música afasto-me, vejo um terminar de ciclo bastante triste, na minha perspectiva e numa conversa com o meu colega de face magra, debatemos uma concordância para com os novos e nossos tempos.

Na nossa época intelectualmente pós apocalíptica observamos o bater de asas de uma orgia informativa, que sobrevoando descaradamente o lar de uma espécie que sem o devido preparo, é extravagantemente atingida pelos ferventes ventos da evolução. Desta fusão errática de elementos inerentes ao progresso, surge-nos uma geração pouco interessada, vidrada num nada que seguem cegamente, hipnotizados por um ilusório mundo onde se inocentemente afogam.

A internet como elemento crucial de uma nova era da nossa espécie, é das maiores culpadas na elevação do banal a algo que merece e tem um palco, tendo-nos dado capacidades incríveis e completamente impensáveis há relativamente pouco tempo, pagamos dia a dia um preço gigante e observamos o erguer de uma nova geração que pouco questiona, pouco procura e se contenta sem contestar nem um pouco, ofendendo-se muito facilmente e na presença de alguém que desagradado expressa tal desagrado é levado como uma pessoa revoltada e nada mais.

Perdemos o essencial sentido crítico que tanto nos faz evoluir e aceitamos os elogios de uma sociedade que por preguiça limita-se a aplaudir cegamente, estagnando uma sociedade movida a tendências que só mancham a nossa humanidade, o artista morreu e fomos nós que o matámos. E foi substituído por uma cópia barata que é recebida de braços abertos por uma geração muito pouco exigente.

O terminar deste final melancólico dá-se em roda onde eu e os meus companheiros comentamos uma edição que parece que sou dos poucos com alguma coragem de dizer que não satisfez assim tanto, brindamos ao final de mais uma cerimónia e acendemos novamente as velas e não deixamos a rotina morrer.

E desperto, nada me interessa senão ausentar-me aguardo à beira rio, como sempre, subo por uma última vez esta desgastante colina e acenando para trás murmuro bem baixinho “Paredes de Coura até para o ano, se te portares bem……” e observo-me desaparecer no horizonte acompanhado de tantos corpos gastos levados ao limite numa semana regada com os mais deliciosos prazeres da vida, alguns com um sentimento de dever cumprido e eu com uma ainda insaciável fome.

Tomás Silva, 29 de agosto de 2025